Fungos e micorrizas

A planta, como qualquer prédio, tem um extintor de incêndio, que é uma outra defesa da planta. E é justamente que ela produz ou substâncias abióticas, como fenóis, ou ela tem a possibilidade de uma necrose rápida do tecido atacado. Por exemplo, no caso de fungo, então o fungo não acha mais tecido fresco, só acha tecido morto e morre também, porque não tem maneira de se multiplicar.

Palestra de Ana. Vc pode ouvi-la:

(…)

Não só as bactérias entram nas raízes; os fungos também. Os primeiros a fazê-lo foram identificados em pinheiros, mas hoje, sabe-se que todas as plantas podem ter fungos associados a suas raízes, com exceção de liláceas como a cebola e de crudíferas como o repolho. A essa associação dá-se o nome de micorriza.

Os fungos podem entrar total ou parcialmente na raiz. No primeiro caso, podem formar nas células um tipo de micronódulo. Na segunda hipótese, envolvem a raiz com seus hífens, constituindo uma espécie de pelúcia.

A associação se estabelece quando as plantas começam a crescer e dissolve-se quando elas desenvolvem-se totalmente. Em plantas anuais isso acontece mais ou menos seis semanas após a germinação. As micorrizas são mais intensas em solos arenosos, pobres em matéria orgânica; em solos humosos, não; os fungos detestam, especialmente, o húmus ácido.

Encobrindo raízes lenhosas, os fungos recuperam-lhes a capacidade de absorção. Mas morrem se faltar-lhes a munição adequada de carboidratos. Assim, raízes de chá, atacadas por fungos de mata recém-roçada, geralmente não sobrevivem. É que, por serem muito mais fracas do que as raízes das árvores nativas, não conseguem “satisfazê-los”. Em gramíneas (aveia, milho, etc.) as micorrizas aparecem, principalmente, após o tratamento das sementes com micronutrientes, providência que promove um desenvolvimento muito mais forte e abundante das raízes. Na verdade, todos os nossos cereais apresentam micorrizas, mas estas raramente aparecem em plantios convencionais, nos quais se faz adubação química em excesso.

As micorrizas possibilitam o surgimento de vegetações exuberantes em solos arenosos (geralmente pobres), equilibrando as condições de vida neles existentes e equiparando-os aos argilosos (quase sempre ricos). Porém, em solos compactados, onde não existe ar suficiente, a associação dos fungos às raízes é difícil; e, em solos inundados, impossível.

Em árvores, as micorrizas formam arbúsculos e nódulos; em plantas anuais, não chegam a tanto, mas uma raiz de capim pode ficar até cinco vezes mais grossa por causa delas.

Em florestas, como a mata geral da Amazônia, a enorme variedade de espécies garante um enraizamento denso por plantas não concorrentes e pela ausência de pragas e doenças arrasadoras. É claro que na mata há árvores seriamente atacadas por insetos – mas só quando elas estão morrendo ou, no mínimo, fracas.

Quem não consegue distinguir entre plantas sadias e vigorosas ou fracas e biologicamente deficientes, jamais compreenderá por que elas são vitimadas por pragas e doenças.

Duas condições são fundamentais para que isso aconteça:

1- Que o agente (microrganismos ou insetos) tenha se desenvolvido desenfreadamente, livre do controle de inimigos naturais;

2- Que a planta seja suscetível. Plantas sadias possuem um sistema de autodefesa tão poderoso que a sobrevivência de parasitas é impraticável. Ora, plantas sadias e bem nutridas só existem quando suas raízes são fortes, saudáveis e bem desenvolvidas, o que somente se verifica em policulturas. Nesse ambiente, as raízes convivem com muita intimidade e é possível observar a existência de plantas amigas e companheiras, que gostam de crescer juntas, que se ajudam e se beneficiam mutuamente, assim como outras que se antagonizam e se prejudicam.

A afinidade entre as raízes exige que uma tenha vida diferente da outra, necessidades diferentes e excreções diferentes. Assim, mucuna e feijão-de-porco aumentam as safras do milho e fortalecem seus pés. É que o milho consegue absorver diretamente os aminoácidos excretados por essas leguminosas e dá sempre de 12 a 20% a mais de grãos na colheita.

Moranguinhos rendem mais com feijão intercalado. Feijão gosta da companhia do milho. A aveia é tão amiga da ervilhaca quanto o algodão do trevo.

No entanto, seria um erro acreditar que todas as policulturas e culturas intercalares sejam benéficas. Existem antipatias muito fortes. Assim, feijão-de-porco afeta a tiririca por suas excreções radiculares e pelo sombreamento intenso que produz. Azevém prejudica guanxuma e girassol, a batatinha. Sorgo ameaça a vida do gergelim e do trigo, e erva-doce ou funcho não costumam se dar bem com ninguém.