capítulo 4

Polônia, 1945

"Serviço de férias"

Em 1940, o centro acadêmico da Universidade coordenava os estudantes para que ajudassem num “serviço de férias”. Entre eles, auxiliar na transferência dos alemães da Wholynia (ou Volínia), uma parte da Polônia ocupada pelos russos, que seriam transferidos para a Polônia ocupada pelos alemães. Durante semanas, meses, as pessoas foram registradas na Volínia e na Galícia para mudar para a Alemanha. O Reich fizera muita propaganda para repatriar aqueles alemães perdidos, porque se permanecessem ali por muito tempo tornar-se-iam russos. Não se dizia por quê eles deveriam, de repente, se tornar russos se estavam vivendo ali há mais de 200 anos sem terem mudado de nacionalidade. E também não se sabia onde colocar tanta gente, mas eles deviam “voltar para casa”.

Os homens foram embarcados no que chamavam de grandes Trecks, carroças cobertas mas abertas ao fundo, como um grande cilindro. Cavalos puxavam a “carga”, caindo esgotados pelo caminho, endurecidos pelo frio de aproximadamente doze graus negativos. As carroças quebravam, as filas paravam, os cavalos morriam. Mulheres e crianças tinham mais sorte (por enquanto), iam de trem. Os trens tinham calefação, amenizando um fator dentre tantos outros tão difíceis.

Chegando a Lodz (para onde Annemarie tinha sido mandada), região central da Polônia, os vagões de trem russos são substituídos por vagões alemães de transporte de animais, sujos, infestados de pulgas, carrapatos e piolhos. A Alemanha estava em guerra, não havia escolha. Mulheres e crianças acomodam-se como podem, suportando o frio, a fome e a imundície.

A chegada à fronteira alemã prenuncia o horror: pessoas imundas, se coçando, famintas. Oficiais alemães sentem nojo, mais ainda, sentem medo. Aquilo poderia virar uma epidemia. “Vamos fazê-los tomar um banho para se
desinfetar.” Homens, mulheres e crianças foram assim “despiolhados” em banhos de vapor, e ainda úmidos e quentes, retornam aos vagões, corpos quentes em choque com o frio extremo, uma pneumonia iminente. Faltava ainda percorrer 300 quilômetros, mas aquelas pobres pessoas não sabiam disso.

A viagem prossegue, quarenta graus abaixo de zero. As crianças, mais vulneráveis e frágeis, sucumbem. O desespero toma conta das mães, algumas ainda com seus filhos ao peito. O trem não para, o vento gélido não é mais frio do que a expressão sombria de quem perdia um filho. Mulheres e crianças mortas jaziam pelos vagões, longe de casa, de seus parentes, longe da realidade. Frio, vento, morte, sujeira, desespero. Não se sabe quanto tempo mais a viagem durará. Onde sepultar os corpos? Quando? Não bastasse o choque da morte, da realidade que se vivia, ainda era preciso raciocinar. Pelas janelas, as mães despedem-se dos filhos mortos, atirados ao vento. Tudo que elas queriam era mantê-los ali, tudo que elas deviam fazer era afastar-se deles. Centenas de milhares de pessoas retiradas de seus lares, transferidas para uma “pátria” que não sabia onde colocá-los. Homens, mulheres e crianças morreram e agora quase não tinham quem assentar, e a apatia toma conta tanto dos futuros colonos quanto das autoridades.

Ainda há mais por vir. Nos exames médicos, descobriram que muitas pessoas vindas da Volínia tinham adquirido tracoma, uma doença dos olhos com referências que remontam ao Antigo Egito. A inflamação crônica, causada por uma bactéria, deixava os olhos muito inchados, e um inseto poderia ser o vetor de sua disseminação, pousando nos olhos para suprir sua necessidade de umidade. De Berlim vem a ordem de mandar todos os infectados a Hamburgo, onde existia o único instituto europeu que cuidava de doenças tropicais. Bisavós de noventa anos e crianças de dois e três anos foram separadas de suas famílias e postas em “campos de tracoma”. Como leprosos, foram cercados por arame farpado e uma tábua alertava os de fora: “Cuidado! Tracoma”.

Annemarie estava no reassentamento em Lodz, esperando a chegada dos trens. Ela tinha que encaminhar a seus destinos as pessoas que sobreviveram, literalmente. Lodz era suja e feia, e o gueto abrigava judeus de
várias cidades. Numa cidade vizinha ainda mais suja e feia do que Lodz, com canais largos e abertos levando o esgoto, os jornalistas escreviam: “Pabianice, a Veneza da Polônia”. O mau cheiro era extremo, como se estivesse impregnado nas pessoas, e mesmo onde não fedia mais, o cheiro permanecia entranhado na memória olfativa das pessoas. Lodz não se parecia em nada com o que Annemarie imaginara… A Polônia era agora uma terra ocupada pelos nazistas, e o trabalho que se prontificara a fazer exigia um senso prático que ultrapassava os limites. A chegada dos trens, o semblante das pessoas, a dor, o medo e a desumanidade daquilo afetavam Annemarie, que em momento nenhum deixava transparecer seus sentimentos.

Os estudantes que trabalhavam nesse reassentamento sentavam-se e fumavam, enquanto os campos estavam cheios de pessoas transportadas da Volínia e Galícia. Annemarie esperava e ouvia, observava e sentia-se impotente, parte de uma engrenagem à qual não queria pertencer, mas da qual não tinha como escapar.

A burocracia alemã dificultava ainda mais a situação daquelas pessoas. A transferência da população começava a parar, porque faltavam documentos. Poloneses eram deslocados de suas aldeias para ceder lugar aos alemães da Polônia. Faltava a papelada, mas em compensação, acumulavam-se as estatísticas. Por toda parte poloneses tentavam se orientar. Retirados de suas propriedades e entregues ao destino, ameaçavam e tumultuavam, andando em bandos e tornando a região insegura. Fazendas foram abandonadas e os campos deixaram de ser cultivados. O assentamento das pessoas viria acompanhado, ainda, da falta de trabalho, de um ofício, de uma atividade. Os candidatos a colonos não tinham as carteiras de identidade e sem elas o assentamento não podia ser realizado. O problema era que durante muito tempo, esses imigrantes tinham apenas fichas para sua identificação. Assim se desenhava o cenário: perambulando pela cidade ficavam os poloneses desalojados; sentados, impotentes, os estudantes a observar e apreender as agruras da guerra. E os alemães da Polônia tentando dar algum sentido a tudo aquilo.

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