capítulo 13

Itaí

Ana viveu em Itaí por 32 anos. Quando comprou aquelas terras, era uma área erma, de pastos cheios de barba–de-bode, erosão, cupinzeiros (sinal de terra dura, compactada) e uma gramínea dura e seca, sem uma mina de água sequer, nada. A fazenda era a metáfora de si mesma; terra machucada, mas com enorme potencial de regeneração. Filhos criados, aprendizados e experiências de campo acumulados, reaprendendo a viver só, sem a companhia de Artur. Ana queria muito trabalhar, ocupar-se, dedicar-se à terra. A escolha daquelas terras a desafiava; sempre defendera que qualquer solo podia ser recuperado, e era isso o que se propunha a fazer. (Já haviam feito isso em Sorocaba para plantar trigo). Por toda a sua vida havia feito experiências, desde que trabalhara com o professor Sekera, na Áustria, na década de 1940. Nunca mais parou, nunca mais deixou de estudar, de testar, de tentar compreender como era a vida do solo, como ele reagia às interferências humanas, como se reconstituía quando era compreendido. Já no Brasil, em Passos, em Itaberá, em Sorocaba, em Santa Maria, trabalhou com cana, trigo, soja, e sua experiência a habilitava a arregaçar as mangas e botar em prática tudo o que sabia, com qualquer tipo de cultura.

Aos poucos a terra reagia ao trato ecológico, a água penetrava na terra, a mata nativa se formou, assim como as nascentes. Ana entregou-se de corpo e alma àquele lugar, transformando-o em seu refúgio de paz. 

Passou a ser convidada para eventos, congressos, palestras e viagens, que ia de bom grado porque sempre adorou viajar. Ganha mais fama por ser uma erudita na prática agrícola, e mais ainda por seu didatismo. De vez em quando, recebia “estagiários” na fazenda, pessoas ávidas por aprender mais com ela.

Em 1980 finalmente lançou Manejo Ecológico do Solo. A agroecologia toma vulto, pessoas começam a repensar suas práticas, o livro dá o alicerce científico que faltava.

Dia 25 de dezembro de 1985, um acidente de carro tira a vida de seu filho Artur, um golpe indescritível para aquela mãe. Ampara-se com o apoio dos amigos, na força de seu trabalho, nos convites que não paravam de chegar para palestras, aulas cursos…Ela viaja para todo o Brasil e pelo mundo. A Fundação Mokiti Okada a convida para trabalhar. Lá Ana trabalhou por mais de 20 anos. Publicou o livro Cartilha do Solo, que mais tarde seria republicado com o nome de Manual do Solo Vivo, pela editora Expressão Popular.

Em 2012, deixa sua fazenda e passa a morar em São Paulo com a filha Carin, na mesma casa que construíra no Brooklin Velho. Aposenta-se definitivamente, deixando um enorme legado em livros, palestras, cursos. Seus ensinamentos transformam vidas. Modos de vida.

Em 2016 tem sua biografia lançada, depois de seis anos de pesquisa, pela geógrafa Virgínia Mendonça Knabben. Seus livros passam a ser reeditados pela editora Expressão Popular, e a agroecologia, ou a prática de uma agricultura ecológica, mostra-se como única alternativa para a preservação dos solos e portanto da vida no planeta.

Ana Primavesi deixa seus ensinamentos como um rastro na terra, por onde todos seguem. Ela diz:

“ Ficamos cientes de que, onde a técnica se choca com as leis naturais, a natureza é que prevalece e domina. Devemos, portanto, reconhecer e aceitar esses limites, fazendo o máximo possível em favor de nossa terra. É bela a agricultura e a amamos mais ainda quanto mais vamos conhecendo a natureza. Acabamos com a ideia de que a terra é apenas fábrica de alimentos. A terra não é fábrica e não produz ilimitadamente. Amemos nossa terra e procuremos saber o que ela é capaz de produzir quando a tratamos carinhosamente. Tudo corre melhor quando feito com amor!

Peguemos nossa pá, perguntemos a nossa terra o que lhe está faltando e tratemo-la depois convenientemente dentro dos limites que a natureza nos impõe, e a antiga exuberância voltará aos nossos campos e a prosperidade aos nossos lares.”

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