capítulo 9

Eureka

Uma colega da Universidade convidou Annemarie para participar de uma excursão com o professor Johannes Görbing. 

Johannes Görbing estudara farmácia, mas o que o atraía mesmo era a botânica e a química, principalmente a química dos alimentos. Seu espírito aventureiro o levou a viajar pelo mundo e quando voltou dos Estados Unidos, já não conseguia mais ficar na Alemanha. Na Ásia Menor, residiu em Aleppo (norte da Síria), onde, num período turbulento na região, trabalhou como médico de um regimento. O confronto com os turcos não chegou a acontecer, mas um episódio despertou a curiosidade sempre a postos de Görbing: tendo roubado trigo para fazer pão, os turcos que o comeram ficaram “meio loucos”. “O que vocês têm no seu cereal?” perguntou Görbing, pois como médico do regimento era o responsável pela saúde dos soldados. “Não é nada”, respondiam, “não é muito agradável essa sensação, mas pelo menos temos o que comer”. O trigo continha fungo e estava misturado com uma outra planta. “Mas o que Alá mandou não se pode tirar da comida”, um conformismo que não o satisfazia.

Görbing estudara as plantas e as utilizava como remédios. E vinha a pergunta: “Se o homem ingere tudo por meio das plantas, direta ou indiretamente, por que ele não dá mais importância a elas? E se o homem sofre de problemas de circulação, dos nervos, do coração e de outras coisas, ele não consegue perceber que apenas aplicar calcário nos campos não é suficiente para que o solo mantenha sua saúde?”

Annemarie seguia o grupo e sorria. Agora o mundo se abria, um mundo desconhecido e muito rico. Não se podia dar à natureza o que ela necessitava se não a compreendessem. Não era só o entusiasmo que tomava conta da jovem pesquisadora, era o despertar de uma paixão! Tudo era tão simples, tão lógico, e mesmo assim era um segredo para a maioria. 

Görbing passava pelos campos a cavalo. Mais adiante desceu, cavoucou a terra grudenta e puxou uma raiz deformada, que recebeu seu diagnóstico. Montou novamente e seguiu, Annemarie atrás, extasiada. Mais adiante ele disse: “Aqui vocês colheram apenas 1600 quilos de cereal porque se esqueceram do fósforo.” Todos o olhavam, surpresos. De onde ele tirava isso? Como? “Görbing é meio vidente”, comentava-se. O professor arrancou um tufo de mato e perguntou ao grupo: “O que foi plantado aqui? Alfafa. Mas não deu nada, morreu e a terra foi lavrada para que não pudéssemos ver o seu fracasso.” O pessoal que o acompanhava estava boquiaberto. O dono da fazenda também. Ele queria que aquele homem, aquele profeta, o ajudasse a planejar o que plantar.

Annemarie sorria. Ela tinha entendido completamente como ele tinha feito aquilo, mas não disse nada. Não é um disparate, pensou consigo. Os campos têm culturas homogêneas com colmos fortes que são embalados pelo vento. As batatas são grandes e lisas, bem diferentes das ásperas e doentes de antigamente. Não eram variedades diferentes, O SOLO ERA DIFERENTE! Como um milagre, a natureza pertencia ao homem e o homem a ela, mas Görbing era maior do que todos os outros porque conhecia as suas leis. Annemarie começava a compreender muitas coisas, inclusive as incompreensíveis, porque agora ela tinha o caminho, a direção.

Görbing conseguira desenvolver seu trabalho e mudar a vida dos que se interessavam por agricultura, mas ele também vivera as perdas da guerra. Quando ela terminou, o velho Johannes tinha perdido o seu campo de trabalho e não aguentava mais não fazer nada. Nos distúrbios do pós-guerra, doente de saudade do seu trabalho no campo e da natureza, ele não conseguia mais substituir a dor pela paixão do que tanto o preenchia. “Assim morreu um grande apóstolo, mas seu legado caiu em terra fértil”, escreveu Annemarie. Por toda a Europa Central, e também em solos tropicais, seus alunos continuam a sua obra de combater a erosão e tornar novamente os campos férteis, entendendo os “porquês” antes dos “como”. Lições de um mestre que desbravou a estrada por onde hoje trilham todos aqueles que se interessam por agroecologia.

Share on facebook
Share on twitter

compartilhar