capítulo 1

Infância e adolescência

Olhando pela janela da sala do castelo de dois andares, em meio às montanhas da Estíria (Steiermark), Áustria, a imensidão verde da paisagem destaca, ao longe, o vilarejo de St. Georgen ob Judenburg, principalmente a torre da igreja. O castelo, chamado Pichlhofen, é uma construção de 1600, com paredes de sessenta centímetros de largura erguidas com pedras enormes, umas sobre as outras, resultando numa fortaleza que no início tinha a forma de um “L”, e mais tarde, outro “L” se construíra, formando um quadrado com um pátio no centro.
castelo de pichlhiffen

A pequena Annemarie Conrad nasceu ali, no domingo do dia 3 de outubro de 1920. Faltavam apenas cinco minutos para a meia noite, mas o anúncio dessa nobre chegada não se dera pelo choro inquietante e estridente comum dos recém-nascidos, e sim por um único berro. Sua mãe, Clara, olhava-a encantada. O rostinho era largo e os olhos puxados, azul-escuros. O bebê olhava à sua volta, como se estivesse interessado em perceber os detalhes do quarto: a lâmpada do abajur amarelo no criado-mudo, as esculturas douradas que enfeitavam as camas, o teto, que mais parecia de uma igreja que de um quarto de dormir. O pai, Sigmund, a encarava, mas estava decepcionado: queria um menino, como muitos pais daquela época. Pesada na balança da cozinha, numa cestinha de pão, Annemarie chegava ao mundo como primogênita.

Ninguém suspeitava que aquela menininha tão pequena se transformaria numa mulher de força e caráter incomuns para sua época. Ou para qualquer tempo.

A vida corria solta pelos campos. Annemarie, agora com dois irmãos, brincava pela fazenda quando não era inverno. As crianças andavam a cavalo, subiam nas árvores, sempre estimulados pelo pai, que adorava vê-los por todo lado, e controlados pela mãe, receosa de que se machucassem. O pai era um grande incentivador, estimulando-os com brincadeiras e outras atividades. Dizia que as crianças deveriam aprender de tudo: a nadar, cavalgar, praticar tiro ao alvo, pintar, desenhar, fazer trabalhos manuais, plantar. Cada um tinha o seu canteirinho na horta, o que Annemarie adorava. Sigmund era um pai atencioso, presente e ao mesmo tempo, severo. Não era de brigar muito, mas de vez em quando batia nos filhos. “Preferia que fizéssemos arte quando ele estava junto do que não fizéssemos nada”, ela conta. E assim os três filhos praticavam equitação, tiro ao alvo, natação (nadavam no rio Mur), canoagem, futebol e ginástica. Dessa última novidade Annemarie não gostava muito, porque quando não fazia direito, recebia varadas do pai. Assim foi também com as aulas de canto e de piano, pois todos precisavam aprender um instrumento musical. Ela aprendia piano e o pai, severo, ficava atrás, e a cada vez que ela tocava errado, lá vinha uma varada, por isso ela decidiu mudar para o violão, um instrumento que o pai não tocava e ele não perceberia cada vez que ela errasse. Mesmo com essa criação rígida, o pai era o grande ídolo de Annemarie.

Um dia, sua mãe, Clara, recebeu a visita de sua cunhada Bertha, irmã de seu marido, com o filho Estevão, um pouco mais velho do que Annemarie. O primo já andava perfeitamente, enquanto Annemarie engatinhava com toda velocidade para todo canto, numa agilidade incrível. Sua tia provocou: “Que vergonha, tão velha e ainda não caminha”. Annemarie parou de engatinhar, apoiou-se nos joelhinhos, colocou as mãozinhas na cintura e olhou para ela com os olhos azuis brilhantes: “Acredita que não sei andar?” Levantou e correu pela sala, sob os olhares atônitos dos adultos. Outra vez, apareceu um primo de seis anos, oito meses mais velho do que ela, com um livro debaixo do braço, todo cheio de si por poder se gabar à prima de que era capaz de ler, coisa que ela, com cinco anos, obviamente não sabia. De fato, a pequena Annemarie não sabia ler. Mas todas as noites sua mãe lia para os filhos “os livros fantasticamente ilustrados” de Ernst Kutzer. Ela sabia que o primo tinha os mesmos livros que ela, então disse a ele que sabia ler sim, e quando o primo deu a ela o livro para testá-la, ela o “leu” com a maior facilidade. Havia memorizado as histórias, inclusive sabendo quando virar cada página.

Quando tinha seis anos, Annemarie ganhou um casal de patinhos. Adorava brincar com eles, mas depois que cresceram, a pata morreu e o coitado do pato estava fadado a ir para a panela. A cozinheira foi encarregada dessa tarefa, mas o pato, assim que a viu, tratou de colocar o bico em suas mãos, todo dengoso. A cozinheira se apiedou: “Ah, mas esse pato eu não vou poder matar”. Um moço que trabalhava na fazenda foi então designado para a tarefa. O pato, mais uma vez, mostrou todo o seu poder de sedução, esfregando-se e pondo o biquinho nas pernas do moço, já rendido em sua intenção. “Coitadinho do pato. Esse eu não mato, não.” Para finalizar a conversa, lá foi o pato para as mãos do açougueiro, mas o bicho era tão fofo que nem mesmo o açougueiro quis matá-lo. Quando esse homem voltou com o pato debaixo do braço para devolvê-lo vivo, todos concordaram que o pato seria deixado em paz, e ele pôde morrer de velhice mesmo.

Pela distância e dificuldades de locomoção, além das intempéries ocasionais (frio, chuva, neve), o pai decidira contratar uma professora particular que ia duas vezes por semana ao castelo, preparar Annemarie para o ginásio. O diretor da escola não gostou da ideia. Como aquela menina poderia aprender em duas horas por semana o que na escola levava dez, vinte vezes mais tempo? Annemarie o olhou e simplesmente disse: “Não tenho dúvida, o senhor vai ver”. E assim foi. Nas épocas de exames ia à escola prestá-los e figurava sempre entre os quatro primeiros alunos. “O diretor não gostava, porque considerava aquilo um desaforo”, lembra Annemarie. No quarto ano primário, com nove anos de idade, tinha obrigatoriamente que frequentar a escola, porque era o ano em que deveria entrar no ginásio, e na admissão deveria ser aprovada em um exame rigoroso. Era um ano importante para sua continuação nos estudos, mas dois meses depois do início das aulas uma meningite a deixou de cama por seis semanas. Uma das consequências da doença foi uma cegueira, que aos poucos retrocedeu, e a visão voltou pouco a pouco. Quando finalmente a doença se foi, “reinava na minha cabeça o mais completo vazio. Não me lembrava de mais nada, nem meu nome sabia escrever. Tive que começar tudo de novo, do zero”. Retornou à escola, sob os olhares surpresos e duvidosos dos colegas. Mais uma vez teria que provar que era capaz. Para continuar a partir daquele estágio, tinha que reaprender praticamente tudo.

As provocações e comentários não duraram muito e ela estudava com toda dedicação para alcançar a classe e se preparar para o exame de admissão ao ginásio, que seria feito na capital Graz. O diretor da escola a procurava todos os dias para aconselhá-la que desistisse, porque o resultado dos exames seria uma grande calamidade. “Um dia, quando outra vez ele rezava seu versinho, perdi a paciência: Eu não vou desistir, só para lhe mostrar que não sou burra. Seus pais também tinham dúvidas de que ela conseguiria passar. Eles sabiam o quanto Annemarie era determinada, mas não sabiam que aquela menina ansiava por mais do que “simplesmente” passar no exame de admissão, após ter que aprender tudo novamente.

Ela escutara que em Graz haveria uma grande novidade: a passagem do Graf Zeppelin, o único exemplar de uma nova aeronave “que parecia um charuto volante com uma pequena cabine de passageiros grudada embaixo de sua barriga”. Então a senhora viu o Zeppelin?- perguntei, cheia de curiosidade. “Mas claro! Bem, fui para Graz, passei no exame e vi o Zeppelin. E como ele passou bem baixo, para que todos pudessem vê-lo de pertinho, foi um grande evento.” A aeronave tinha que ser impulsionada por hélio, um gás muito leve, mas também muito inflamável, e por isso a ideia foi logo abandonada, apesar de ter aberto o caminho para a construção de outras aeronaves daquela época em diante.

O internato do Sacré Coeur (Sagrado Coração) ficava em Graz, a 120 quilômetros de sua casa. Famoso pela disciplina e por aceitar somente meninas da antiga aristocracia austríaca, o colégio tinha apenas madres como professoras, cujas famílias também eram nobres. “A disciplina era dura e total”, relembra. Diziam que a aristocracia se revelava pelo comportamento e não pela posse de dinheiro (nob not snob), e qualquer deslize acarretava a expulsão da escola. Nas salas de aula, sentavam-se três meninas em cada mesa. Uma delas era sempre mais velha, entre 15 e 18 anos, estudante dos últimos anos do curso científico (ensino médio) e responsável pelo comportamento das mais novas, com idades entre 10 e 14 anos. Era uma espécie de tutora, que por já ter passado pela experiência do ginásio, agora auxiliava as novatas naquele novo mundo cheio de regras e restrições.

Annemarie adorou sua “educadora”, uma menina chamada Paula, de 16 anos, bem educada e acima de tudo, muito justa. As aulas deviam ser assistidas com atenção e com uma postura ereta, e as madres costumavam andar calçadas com pantufas, deslizando pelos corredores silenciosamente para inspecionar a ordem. O silêncio era outra regra a ser estritamente seguida, e no caso de serem flagradas tagarelando ou corcundas, as meninas recebiam um golpe rápido e dolorido de vareta.

Annemarie gostava do Sacré Coeur, mas não aguentava as missas em jejum pela manhã, algo a que não conseguira se adaptar. Por várias vezes desmaiara durante a cerimônia, o que, depois de um tempo, acabou por ocasionar uma dispensa da obrigação de estar na capela em jejum todas as manhãs. Ela podia dormir mais um pouco e, além dela, somente mais uma menina tinha esse problema. Os desmaios eram frequentes, mas fora isso, Annemarie se destacava por ser organizada e por várias vezes ganhara o prêmio mensal como a mais ordeira do colégio. “Isso porque meu pai nos obrigava a manter uma ordem rígida não somente dos brinquedos, mas também dos nossos armários e gavetas, independentemente de termos empregados para fazê-lo.”

Além das missas, outra coisa a desagradava no Sacré Coeur: uma menina do segundo ano que conseguia tirá-la do sério. “A menina era extremamente amolante” e implicava com Annemarie o tempo todo. Foi assim que ela resolveu acabar com a implicância de uma vez por todas: comportara-se incrivelmente bem durante dois meses, ganhando a cada sábado todos os prêmios de ordem e comportamento. Era a menina referência do internato. Não durou muito. Lá veio a outra provocá-la novamente, mas desta vez a garota exemplar mostrou como perder a compostura: precipitou-se sobre ela e deu-lhe uma baita surra. A menina ficou lá, estatelada no chão, chorando e gritando. As madres, perplexas, não conseguiam acreditar como uma aluna exemplar, detentora de todas as condecorações que a escola poderia dar, poderia fazer uma coisa dessas. Annemarie se defendeu: não era fácil imaginar como tinha aguentado tantas provocações o tempo todo e ainda assim ter sido exemplar? – aí estava o grande mérito, e a escola deveria reconhecer isso.

Estudou por um ano em regime de internato. Os irmãos Sigmund e Wolfgang também deveriam ir para o ginásio. O pai resolveu colocar um professor particular para os três em casa. Eles deveriam fazer os exames, Annemarie em sua escola, em Graz, os meninos noutra, só de meninos, duas vezes por ano.

Passados esses anos, seus pais resolveram que ela já podia ser aluna externa do ginásio do Sacré Coeur, em Graz. Um casal amigo de seus pais, que tinham uma filha um pouco mais velha do que Annemarie, Renata, também iam mandar a filha estudar lá, e assim um quarto foi alugado para as duas, para que não estivessem sozinhas na cidade. Annemarie estava com 15 anos.

As duas garotas, vivendo sozinhas, fizeram muitas coisas juntas, dentre elas um curso de planadores, aviões sem motor que planavam no ar. Annemarie adorava planar, mas parou com essa atividade depois que, por milagre, não se feriu: a trinta metros do chão, subitamente faltou sustentação do ar e o planador despencou em um vale arborizado. Sob os destroços e com os corações quase parados de seus colegas, foi retirada do que sobrara do planador. Annemarie não sofreu nenhum ferimento grave, mas após esse episódio deixou o hobby de lado.

Em Graz, Annemarie mantinha-se empenhada em seus estudos, mas Renata, secretamente, passou a participar de atividades políticas. O ano era 1936. A menina não ficava mais em casa e muitas vezes faltava à escola. Annemarie estranhou suas ausências esporádicas e sua atitude mudada, mas não desconfiou de que se tratava de militância política, até que Renata desapareceu. A menina sumira, sem deixar rastro. Dois dias depois de seu desaparecimento, a polícia chegou ao apartamento das duas e encontrou no armário de inverno de Annemarie (que, por ser verão, não estava sendo usado) impressos relacionados à atividade política de Renata. “Eu fui para a escola e quando voltei, a polícia estava no nosso quarto revirando tudo.” A acusação caiu como uma bomba sobre a cabeça de Annemarie: nazista.

Apesar de seus 16 anos, e sem possibilidade de se defender ou de avisar seus pais, ela foi presa. A polícia, frente ao flagrante e com as provas encontradas, não a deixava falar. Estavam orgulhosos de terem capturado “uma nazista”.

Na escola, era a semana final das aulas. Aquela aluna exemplar não aparecera na última semana e não havia nenhuma informação sobre sua ausência, nem da parte dela, nem dos colegas, muito menos de seus pais. Ao término das aulas, Annemarie deveria voltar para casa, e como não chegou, seu pai imediatamente partiu para Graz, apreensivo. O que teria acontecido à sua filha? Ao descobrir o ocorrido, fez um escândalo. Era inadmissível que tivessem prendido uma menina de dezesseis anos e nem ao menos tivessem avisado à família! Solta depois de oito dias, voltou para a casa dos pais, mas o estrago estava feito: avisada pela polícia, a escola a tinha expulsado sumariamente. Não satisfeitos com essa atitude, comunicaram o ocorrido a todos os outros colégios austríacos, explicando os motivos: “atividades políticas”. Tentavam de toda forma destruir qualquer possibilidade daquela “nazista” conseguir retornar aos estudos, ou ter algum futuro. Mal sabia ela que iria enfrentar não só a guerra e seus horrores, mas principalmente a dor das perdas e da impotência frente aos acontecimentos que se seguiriam.

Annemarie tinha um tio-avô por parte de mãe, Konrad Heerklotz, que vivia em Dresden, capital da Saxônia, região situada no sudeste da Alemanha. Ele era o prefeito-mor, um cargo que lhe conferia autoridade frente aos outros prefeitos dos distritos sob sua jurisdição. Tio Konrad estava desolado pela perda recente da esposa e dos três filhos (levados e mortos pelos russos na primeira guerra). Escreveu, então, a Clara, perguntando se Annemarie não poderia ficar com ele por um tempo, estudar e lhe fazer companhia, no que Clara acedeu. Nos dois anos em que viveu em Dresden, Annemarie teve uma vida tranquila. Seu tio-avô, por sua elevada posição política, costumava ganhar ingressos para todos os teatros e concertos na cidade. “Por sorte minha, a vida na cidade era de muita cultura. Vi muitas primeiras apresentações de concertos, óperas, operetas e teatros, uma vez que a época antes da Segunda Guerra Mundial, culturalmente, era muito rica, embora os nazistas já tentassem orientar a cultura segundo o seu credo.”

No colégio AHM (Altstädtische Höheren Mädchenschule), tradicional para garotas, Annemarie concluiu o exame da Matura sem grandes dificuldades, depois de ter constatado que seis anos na Áustria correspondiam a sete no ginásio da Alemanha, o que a fez entrar direto no oitavo ano. Naquela época esse exame era realizado somente uma vez e era dificílimo, porque exigia o conhecimento de todos os anos estudados até ali, em uma prova escrita e outra oral. Quem não fosse aprovado não teria outra chance, e sua realização exigia não só preparo intelectual, como também uma vestimenta formal, condizente com a importância do exame. Terminada a Matura no período normal, o jovem estava apto a cursar a universidade. “Mas como os nazistas detestavam os Intelligenzler (pessoas que trabalhavam com a cabeça), para poder frequentar a universidade nos obrigavam a um serviço braçal de nove meses no campo, sem remuneração. Era uma forma de tentar fazer as pessoas desistirem de estudar com este grande desestímulo.

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