Transcrição do filme A Vida do Solo de Ana Maria Primavesi

​Florestas com árvores caducifólias e persistentes cobrem o solo. Uma vida intensa habita o solo. No mundo o chão e as árvores, as formigas limpa as árvores de insetos como também os pássaros. Borboletas gozam as suas curtas horas de vida.

O solo não é uma massa inerte constituída de fração minerálica servindo de simples suporte à vegetação mas um sistema dinâmico igual a um organismo vivo. A vida do solo principia pela vegetação.

Cai uma folha no chão. Perde a sua cor verde, murcha e morre. Esta morte é o início da vida. Uma infinidade de micro seres sustentam a sua vida de matéria orgânica morta. Eles aproveitam primeiro as partes mais tenras, sobrando a carcaça, a lignina. Esta, enriquecida com a ajuda de bactérias de nitrogênio provindos tanto do ar quanto do solo e em presença de enzimas microrgânicas é oxidada, resultando como produto final uma substância marrom e friável com propriedades coloidais, o húmus. 

​O trabalho mais importante da mesofauna é levar o húmus para dentro do solo. Sem eles, ficaria inútil, depositado na superfície do chão. Porém, os mais importantes misturadores são as minhocas, que transportam o húmus do solo distribuindo-o por toda parte, possibilitando assim, a micro vida. 

O estado original do solo é amorfo, completamente desfloculado, antes que se inicie a ação do cálcio. Este, como poderoso íon positivo, provoca a agregação das partículas em grumos primários. Os fungos, raízes vegetais mas especialmente minhocas juntam esses grumos primários com a ajuda do húmus, transformando-os em grumos secundários que constituem a base da estrutura fofa do solo. Em três anos, toda a camada viva do solo passa uma vez pelas tripas das minhocas ou, ao menos, devia passar.

Estes agregados estáveis à ação da água pluvial são a base da fertilidade do solo agrícola. Actinomicetos pegam com seus micélios estes grumos secundários ligando-os a uma estrutura porosa, criando com isto, as condições básicas para a vida das raízes e micróbios e permitindo a livre circulação de ar e água. 

​Os grumos são assegurados por micélios de fungos e bactérias. O húmus cola, com seus derivados, como a humina, esta estrutura. Mas o mais importante do húmus, é que ele forma mesmo em solos arenosos sem argila uma eficiente base coloidal, sendo a sua ação absortiva quatro vezes maior do que a da melhor argila. O equilíbrio biológico desses solos é garantido por tricodermas e actinomicetos que evitam a ação de fungos danosos, não dando nenhuma possiblidade a estes. 

​Os fungos patógenos possuem nestes solos inimigos demais para poder proliferar. Nemátodos controlam eficazmente os patógenos mas também eles também não têm uma vida fácil, sendo caçados pela mesofauna predatória.

As bactérias nutrem-se tanto de íons metálicos como as plantas. O fósforo não se perde em solos férteis sendo guardado por micro seres ou absorvido pelo húmus, que por sua vez, nutre a maioria dos micro seres. A livre troca dos íons , essencial para a alimentação vegetal, só se dá em solos onde há espaço suficiente para poder enxamear.

A vida das bactérias e fungos saprófitos depende da alimentação pelo húmus, porém a  capacidade dele de decompor a matéria orgânica é muito diversa. Os actinomicetos são especialmente poderosos decompositores de proteínas liberando o nitrogênio em forma de amônio.

A morte de um micro ser não é causa de tristeza no solo, ao contrário, logo aparece um outro que se regozija com isso por ter farta alimentação. Os nutrientes iônicos absorvidos pelo micro ser morto são liberados nesta ocasião. Quanto mais intensas a micro vida, tanto mais ativos os processos de troca. Os íons enxameiam e são de fácil assimilação. 

Entra a raiz de uma árvore à procura de alimento. Ela absorve os íons nutritivos que sobem, com a seiva, para nutrir as folhas e assim formar flores e frutos. Fungos penetram na raiz, vivendo em simbiose com ela. São os micorrizas. Apanham para a raiz os iontes metálicos enquanto esta lhes fornece carboidratos como fonte de energia. Chamam-se por isso “sugar fungi” com fungos e açúcar. Vivem em perfeita harmonia com a raiz beneficiando-se mutuamente. Especialmente a absorção de fósforo, nitrogênio e potássio é facilitada pelos fungos, de modo que a planta, hospedeira de micorrizas, leva vantagem sobre as outras que não vivem associadas com fungos.

Parasitas como fusários não proliferam em solos biologicamente equilibrados, nem têm aqui vida comprida. São eficazmente controlados por outros fungos como a Tricoderma miridi que defende o seu espaço vital por poderosos antibióticos.

Também, várias espécies de formigas nutrem-se por esporângios de fungos, reduzidos assim drasticamente, mas os nemátodos sabem também que isso é uma delícia.

As minhocas são tomadas pelas maiores protetoras e favorecedoras da produtividade do solo. Só prosperam onde há cálcio e não suportam nemátodos em suas vizinhanças, perseguem e matam-nos.

Entra o homem nesta ordem com seus desejos e a sua avidez. Roça com fogo ou ateia fogo no campo desflorestado sem consideração com os danos que isso provoca à vida do solo. A biosfera do solo com todo seu sistema complicado de ar, água, micróbios, fungos, amebas e pequenos animais é calcinada. Morrem as bactérias, fungos, amebas, nemátodos, e todos os micro seres inclusive os actinomicetos. A matança é total e nada sobrevive. Enquanto, porém, existe húmus no solo, há sempre a possibilidade de repopulação. Esta, nunca é idêntica à antiga, mas inteiramente o produto das condições reinantes.

A água do subsolo está ascendendo à superfície em forma de calor rompendo capilares retos. O subsolo perde a sua umidade. O homem lavra o chão. Se é rico, com máquinas potentes. Se é pobre, com uma junta de bois.

Cada aração é uma revolução da ordem antiga. Entra o ar, e com o ar, entram também os primeiros germes e bactérias aeróbias. Onde há suficiente oxigênio elas se assentam.

Fungos e actinomicetos não conseguem manter-se em maior escala. O solo arado ostenta uma vida completamente diferente na terra natural, que é principalmente de bactérias aeróbias. Muitos insetos são agentes de propagação de germes como por exemplo, a centopeia. Cada passo de suas patas infecciona o solo e logo o mesmo é tomado por uma infinidade de bactérias  aeróbias, móveis ou imóveis que dependem todo do trato pelo homem chamamo-nos por isso desimogênicas, é a palavra para os microrganismos domésticos. Crescem elas nos grumos de terra,  como florestas. Povoam com uma trama viva a estrutura do solo. Crescem em abundância por toda parte como relva macia.

Onde há suficiente umidade e bastante microplantas onde estão as bactérias também não faltam os protozoos, os microanimais que as pastam. Mas a água é o elemento vital da maioria dos micro animais. Onde diminui a capacidade de retenção do solo a água torna-se escassa e os protozoos desaparecem.

As bactérias, igual aos fungos, defendem-se por antibióticos o seu espaço vital. O ferro sobe do subsolo. Porém, também na terra cultivada, sua ação danosa é impedida pelo húmus. Também aqui o fungo tricoderma é um dos maiores inimigos dos fungos patógenos. Onde há minhocas nunca há proliferação de fungos, sejam quais forem. 

É intensa a movimentação iônica que enxameiam graças às condições favoráveis. A matéria orgânica, aqui em forma de húmus, alimenta a micro vida. Especialmente os decompositores de proteínas são ativos, decompondo-os até amônio. Porém, num solo sadio, o amônio não se conserva. Os nitrobacteres entram em ação, transformando, na presença de oxigênio, em água e em nitratos, nunca cessando a nitrificação em ambiente aeróbio.

Num solo cultivado, o gasto de húmus é muito grande graças à enorme quantidade de bactérias existentes e essas bactérias decompõem a matéria orgânica até água e gás carbônico que sobe, sai da terra e é absorvido pelas folhas. As folhas vegetais os sintetizam para carboidratos. Depende o crescimento vegetal do abastecimento contínuo com gás carbônico.

​O milho, por exemplo, cultura básica dos ameríndios, nestes solos têm o seu desenvolvimento contínuo garantido cresce satisfatoriamente nunca estacionando em épocas menos favoráveis. 

Num solo cultivado, o papel da raiz é duplo. Ela absorve nutrientes para o vegetal e excreta substâncias metabólicas que a planta não utiliza mais ou com as quais defende seu espaço vital ou usa para mobilizar os nutrientes.

Bactérias e fungos se aproveitam disso populando a rizosfera. A raiz fornece energia às bactérias. As bactérias, por sua vez, fornecem íons à raiz. Chama-se isso simbiose trófica.

Quanto mais intensa a vida em torno da raiz, tanto maior a disponibilidade dos nutrientes. A seiva leva os nutrientes para as folhas. Nas folhas são sintetizadas a matérias orgânicas onde atuam como ativantes de enzimas ou catalizadores de açúcares. Mas esta atividade muito intensiva é anormal e portanto, carregam o germe da decadência em si.

O ferro é liberado e sobe às camadas superficiais do solo. Une-se com o fósforo disponível e somente graças à ação absortiva do húmus não é perdido. Perdido porque as ligações de ferro e fósforo são muito estáveis, inaproveitáveis aos vegetais.

Interessante é a ação da água no solo. Muitas vezes, ela entra e se cinde em hidrogênio e hidróxido. Os hidróxidos se unem com cátions como potássio, cálcio e magnésio, desaparecendo com o tempo da camada arável, caso a atividade do húmus não o impeça. Parte da água que se infiltra é absorvida pelos grumos do solo encobrindo-os com uma película fina. Quanto melhor agregado o solo estiver tanto maior é a quantidade de água que ele consegue reter. Esta água é depois absorvida pela raiz vegetal. Chamamos a água de retenção a água útil porque serve às nossas culturas agrícolas. 

​Uma outra parte é drenada para o subsolo levando consigo os íons não ligados ao complexo coloidal, o que chamamos de lixiviação ou empobrecimento em bases. 

O hidrogênio entra nos lugares vagos dos íons que se uniram ao hidróxido. Esta troca empobrece o solo em bases e o enriquece em hidrogênio. Ele torna-se ácido. Na monocultura, as raízes excretam sempre as mesmas substâncias que se acumulam no solo e clamam sempre os mesmos nutrientes, refugando outros. Assim, o solo empobrece em alguns íons como o potássio, magnésio e cobre e restam outros como o cloro e sódio.

Ainda os agregados do solo são colados por humatos. Ainda aí atua o complexo coloidal húmico. Mas as bactérias aeróbias necessitam tanto material energético que o húmus se gasta porque não se pensou em renová-lo.

A intensa atividade bacteriana está gastando material orgânico num ritmo até agora desconhecido, especialmente em clima tropical onde há uma explosiva multiplicação de microrganismos, o húmus, antes farto e rico, logo está minguando perigosamente. Termina também, a vida de muitas bactérias aeróbias, saprófitas, que desaparecem. 

O complexo de troca e absorção não funciona mais devidamente. Perde-se o cálcio em forma de hidróxido. Também o potássio é trocado por um hidrogênio. Não tem mais bactérias que o consomem e seguram e só de vez em quando uma raiz ainda apanha um íon nutritivo.

Surgem sempre mais pseudomonas. São os produtos do ambiente novo na rizosfera, enquanto outras bactérias desaparecem por falta de condições favoráveis. Desaparece o húmus totalmente e desmorona, em consequência da estrutura do solo.

A decadência do solo cria outras condições de vida e com isso surgem outros seres: ácaros, esses terríveis parasitas sentem-se à vontade. Amebas são atraídas pelas inúmeras pseudomonas que povoam o chão.

As plantas deficientes, especialmente estas com falta de potássio, são fácil presa deles. Todos conhecem o temido fogo bravo do fumo, causado pela degeneração da vida equilibrada. As raízes que entram agora no solo encontram um ambiente inóspito onde prolifera um ou outro micro  ou meso ser. Nemátodos parasitas atacam as raízes formando nós típicos. 

Os íons, altamente hidratados como o hidrogênio e sódio que agora predominam no complexo coloidal, provocam a dispersão e peptização do solo. A estrutura se desflocula, ele se torna compacto e o ambiente do solo, anaeróbio. Com isto, o complexo coloidal decai. 

Ferro e alumínio sobem do subsolo dando o óxido de ferro ao solo, num tom vermelho pronunciado. 

A troca cessa e os íons ainda existentes não enxameiam mais. Eles ficam indisponíveis muitas vezes por entrar em ligações estáveis com outros minerais. Os outros são lixiviados, resultando disso o empobrecimento do solo. As plantas não conseguem absorver os íons sem a ajuda das bactérias.

Pseudomonas e fungos começam a proliferar de novo, mas por falta de controle biológico, a sua multiplicação é unilateral e portanto, danosa. A raiz que agora entra no solo solta lixo metabólico mas ninguém o aproveita, não consegue mais nutrientes disponíveis, então ela apalpa os grumos de terra e retira-se finalmente do ambiente inóspito. 

O fósforo é fixado pelo ferro em ligações insolúveis sendo inaproveitado pelos vegetais. Em ambiente anaeróbio, ocorre um processo de desnitrificação. Os nitratos são reduzidos a amônio por meio de poderosos redutores como os fungos aspergillus niger e os actinomicetos. O amônio livre se perde. Os fungos enredam tudo com seus filamentos sendo quase os únicos micro seres eritróforos capazes de se nutrir dessa camada compacta.

As minhocas, apesar da fartura de alimentos, sofrem da falta do ar, se enodam e entram em repouso, morrendo se a estrutura não melhorar. Cada gota de água que entra não beneficia o solo, mas continua a obra de destruição dos agregados agora, desprotegidos.

O solo peptiza-se e compacta-se cada vez mais formando os temidos “hardpans”. As raízes não conseguem mais penetrar nas camadas duras em busca de alimento. Avançam somente nas frestas entre os torrões, tornando-se os nutrientes escassos para a planta por não poderem ser absorvidos.

Vejamos um exemplo: antes o milho crescia rapidamente e era de uma cor verde, luzente, formava colmos altos e grossos e produzia espigas grandes e pesadas, livres de qualquer parasita e com a decadência do solo, a nutrição é cada vez mais dificultosa. Agora ele sofre de fome porque não consegue mais tirar do solo o suficiente para sua nutrição. E quando a decadência é grave, aparecem seus sinais nas folhas.

​O trigo purpúreo é a falta de fósforo. O “V” clorótico, começando na ponta da folha indica a falta de nitrogênio. As margens murchas, a de potássio. Mutações genéticas aparecem em campos deficitários com espigas pequenas e múltiplas com grãos frouxos no sabugo que são as consequências da falta de boro. Ano a ano, o milho se torna menor, mais fraco e pior. As lagartas atacam as espigas pobres em amido numa obra de destruição.

O homem então, volta à cena e resolve adubar. Aduba porque toma os sinais da fome unicamente por pobreza do solo. Da decadência, ele não se dá conta. O adubo cai e entra no solo. O cálcio, pela troca forçada de potássio, magnésio e outros íons positivos nutre melhor as plantas e faz “os pais ricos, mas os filhos pobres”. Se os nutrientes absorvidos não são restituídos, as grandes quantidades de íons que entram no solo não conseguem entrar no complexo de troca, ao contrário, segundo a Lei de Donan, provoca a saída dos últimos íons trocáveis. Eles se ligam parcialmente com íons existentes no solo e chama-se isso de poder fixativo, em parte são absorvidos pelas plantas.

As raízes absorvem o que lhes convém, por exemplo, no hidrogênio, o nitrato deste, do cloreto de potássio, o potássio. O cloro fica no solo como resíduo ou ácido que se liga com o hidrogênio formando o terrível ácido de ação abiótica. Finalmente são lixiviados.

O ambiente, cada vez mais inóspito, deixa proliferar somente uma ou outra espécie de micro seres que conseguiram se adaptar e que se multiplicam demasiadamente. A essa altura, a raiz vegetal tem as maiores dificuldades de nutrir-se. Se plantamos num campo desse batatinhas, os fungos se aproveitam do dilema da planta, entram no tecido deficiente e conseguem, num exemplo da ftóftora, liquidar o vegetal. A pelúcia branca no caule e nas folhas denuncia o fungo. 

Agora, o homem se desespera e abandona o campo onde se assenta uma pobre flora silvestre. O gado deve agora aproveitar o que restou, mas as vacas, magras e fracas, e por isso parasitadas, não dão um resultado animador. Quanto mais pobre o pasto, tanto mais pobre também o gado, que no meio do inço encontram um parco sustento. 

Em consequência da decadência biológica, o solo se torna compacto. A água pluvial encontra muita dificuldade de infiltrar-se, escorrendo a maior parte superficialmente. Com enxurradas e voçorocas inicia-se a erosão.

Desbarranca o terreno, águas turvas, cheias de lama e areia escorrem rapidamente enchendo os rios. Por toda a parte se vê no terreno camadas de água, não somente por causa da chuva mas especialmente por causa da má permeabilidade do solo, que interrompe o ciclo natural da água pluvial através do solo para os depósitos subterrâneos que devem fomentar as fontes e vertentes. De todos os lados juntam-se as águas, não infiltradas, causando pavorosas enchentes. Quilômetros e quilômetros de campos e pastos são cobertos pela enchente, que traz o desespero aos lavradores e pecuaristas. E depois das águas tem de vir, forçosamente, a seca.

A vida dos solos decaídos. A vida do solo foi destruída. O solo é compacto e impermeável. Poucas são as plantas que ali podem vegetar nestas condições desfavoráveis. A maioria morreu e as que se encontram neste ambiente não resistem às adversidades climáticas. O sol, que acaricia o solo vivo, fazendo brotar nova vida, calcina o solo morto, esterilizando-o mais ainda.

Ácaros gostam desse ambiente. Solos pobre e duros, sem cal, com vegetação grosseira, são o eldorado deles. Aqui eles vivem parcialmente vida livre, muitas vezes, porém, como parasitas esperando um hóspede, uma formiga, um mosquitinho, um besouro ou um boi, mas também atacam as plantas.

​Cupins são habitantes obrigatórios de solos ácidos, duros e secos. Neste ambiente próprio eles proliferam. Defendem-se contra seus adversários pelo isolamento de seus ninhos e dos corredores. Não é raro apanharem colêmbolos com os quais cimentam as paredes dos corredores. Vivem de raízes perenes e de sementes e caso não encontrem esta comida comem também madeira e papel. Aos seus corredores dedicam todo o zelo. Forram-nos, bem assim como seus ninhos, de uma substância preta rica em nitrogênio. Onde há suficiente matéria orgânica, melhoram tanto o solo que impossibilitam a vida a si próprios.

Mas também ratinhos e outros roedores, como o tuco-tucosão habitantes obrigatórios desses solos. Fazem seus corredores no solo o que somente conseguem quando este é compacto. Se assim não fosse, os corredores ruiriam com cada chuva, aterrando seus habitantes. Nestes solos, a água quase não penetra, deixando os pequenos mamíferos prosperarem. Cortam raízes, que carregam para seus ninhos, colhem sementes e frutos do campo e invadem, não raramente, paióis de fazendas onde roubam milho e outros grãos. Mas não vivem sem inimigos.

​A natureza sempre cuida do equilíbrio razão porque ela se baseia além da caça e do predador, ou, como França chama, da cadeia alimentícia que mostram um dos fatores que controlam a vida do solo. As cobras aparecem em todos os solos, onde encontram o seu sustento caçando ratinhos e outros pequenos mamíferos. Elas são, portanto, muito úteis.

​ Uma das maiores pragas de solos compactos e inertes são as saúvas. Estas escolhem de maneira bem organizada as poucas plantas que crescem nestes solos. Umas trepam e cortam, outras esperam no chão protegidas por pequenas formigas sentinelas que transportam a safra para seus ninhos, onde a usam para seus jardins de fungos e também os oficiais dirigem todo o trabalho. Três estabelecem a ligação no ninho. Estas temidas formigas saprófitas, em lugar de caçarem insetos e larvas, protegendo assim as culturas, cortam e desfolham jardins, hortas e pomares, florestas, pastagens e culturas agrícolas. Somente prosperam onde não há formigas predatórias e desaparecem quando estas surgem. Porém, as formigas predatórias dependem da mesofauna ativa durante o ano todo porque os solos compactos não o oferecem.

​Enquanto isso, fungos tecem uma trama viva de micélios no solo, reforçam as camadas compactas e os tornam ainda menos penetráveis, acidificando-os com suas excreções e tornando-os sempre mais inadequados para a melhoria de vida dos que ainda se defendem por antibióticos. Estes solos são conhecidos por sua vegetação grosseira e poucas plantas como barba-de-bode, aristida , as quais conseguem ali, ainda, o seu sustento.

​O vento varre o chão e o sol calcina. Não há mais lugar para uma recuperação sui gêneris, porque as condições chegaram ao extremo.